The Persistence of Memory

The Persistence of Memory

 

As fases de sofrimento de um artista normalmente dão origem a grandes obras, a grandes escapes e concretizações de criatividade.
Dali, em ruptura com os valores do pai, inicia uma fase inigualável.

“Persistência da memória”, a pintura talvez mais conhecida de Dali, a origem da sua fortuna, foi executada, num clima de desespero, de angústia, após ter sido expulso da casa do pai. Dali escandalizava o pai e assumia atitudes de blasfémia em relação à mãe já falecida – um processo de auto-afirmação complexo, tortuoso e sofrido.

A pintura do contraste entre o “mole e o duro“.

Os rochedos do cabo de Creus, fazem parte do fundo do enquadramento, o local exacto onde os Pirinéus vem morrer no mediterrâneo – local que inspirou outros artistas, Gaudi, por exemplo.

As formas, as sombras dos rochedos, metamorfoses continuadas de quem os observa, mediante o movimento de aproximação ou afastamento, interiorizadas e adaptam-se ao subconsciente do observador, que olha de novo e já imagina outras formas, outros conteúdos, outras memórias e outras realidades.

Este exercício imaginativo e criativo está presente sem dúvida em Dali e em toda a obra escultórica de Gaudi, tornando-se até lúdico, este jogo granítico/sensorial.

O mole representado pelos três relógios disformes, resultantes de uma noite de enxaqueca depois de um jantar rematado por um Camembert, inicia a reflexão contrastante entre a dureza dos rochedos e o mole, o super mole do queijo fluido.

O que representarão os relógios? Sabemos donde surgiu a inspiração, mas qual será o seu verdadeiro significado numa noite de enxaqueca?

… A tentativa ou a convicção de escapar ao controle do tempo?
… a possibilidade de o dobrar consoante o nosso desejo?
… um tempo que tanto é passado como é presente, que tanto é sonho como é realidade?
…o tempo flexível como testemunha do adormecimento do pintor?
… os vários tempos que só sobrevivem quando relacionados com alguma coisa?

O tempo é representado como entidade completamente subjectiva. Um quarto relógio fechado ao onírico, será um tempo morto em putrefacção, invadido pelas formigas, um tempo desinteressado pela dialéctica com o rochedo, com o mar e com Dali? Penso que este relógio estará relacionado com a figura paterna.

Entendo os relógios,… o mole… mas como explicar? O mole sinónimo do versátil do macio, do extravagante, do feminino.

O próprio Dali fica auto-retratado nesta pintura, como figura mole também adormecida na areia, sem boca, mas com língua que lhe sai do nariz. O contraste entre opostos é acentuado pela relação entre o rigor e o detalhe da representação ao nível das formas, e as dimensões que não sendo reais permitem a deformação (relógios e o rosto de Dali) e ainda pelo colorido, rico e variado, mas que divide a tela em duas partes desiguais no entanto harmoniosas. Na pintura domina a horizontalidade, que se cruza com outra direcção ortogonal representada pela oliveira.

Quantos já sonharam num meio integrado no sem tempo, e que acaba por persistir apenas na nossa memória? Mas afinal porque Dali pintou os ponteiros dos relógios?

Dali achou a pintura extraordinária, mas imprópria para venda. Engano mostruoso, o quadro foi logo vendido, e passou por vários mãos até chegar ao Museum of Modern Art de NY.

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