Die Verwandlung - Franz Kafka
A Metamorfose é uma das grandes obras de Franz Kafka, escrita numa linguagem sedutora e com uma trama que cativa do princípio ao fim. É, sem dúvida, um livro fascinante, que não deve ser ignorado por quem pretende encontrar e descobrir o seu papel neste mundo. A linguagem simples, desprovida de grandes artifícios, dum preciosismo literário desnecessário, oculta a complexidade do significado da obra, o conteúdo. Kafka apresenta, assim, os nossos medos, acima de tudo, o receio de não ser aceite como igual. Com efeito, o desespero do homem perante o absurdo do mundo está bem patente no livro.
Gregor Samsa, a personagem principal d’ A Metamorfose, sofre uma transformação que o torna um insecto gigante, um grotesco ser, forma ousada de nos introduzir a uma introspecção, à análise dos nossos próprios actos. Emerge, deste modo, o medo da sociedade em aceitar as diferenças, uma vez que a própria família de Gregor, vendo a sua brusca e inesperada metamorfose, o marginaliza, exceptuando a irmã, que apesar do repúdio o tenta alimentar e perceber. Condenado pelo mundo que não o compreende, acaba confinado a um pequeno quarto até à sua morte. O caixeiro-viajante, jovem de inúmeros projectos não só pessoais, como também para a família, com um espírito de entreajuda, tornando-se incapacitado e alterado fisicamente, vê as suas planificações irrealizáveis.

A clareza da história, a descrição minuciosa dos passos e pensamentos de Gregor já como insecto, o facto de se interrogar e não entender uma realidade social tão hostil, depois de se mostrar amigável e inofensivo, confrontam e comovem o leitor. No processo de metamorfose, deixa de ser compreensível – deixa de emitir a sua voz humana, passando a emitir um sibilar de insecto e os seus movimentos não passam de um silvar irritante, provocado pelo contacto das suas imensas patas com o soalho da casa onde vivia. No entanto, para Gregor, o mundo continua a ser claro, perceptível em gestos e linguagem. Ele próprio apenas se apercebe de que já não o compreendem pelas reacções externas, na sua cabeça a voz continua igual.
Nesta obra, a realidade e o surrealismo vivem como uma unidade. Logo o primeiro parágrafo, sem rodeios, começa com um fio de história que é desenvolvido em toda a obra. Em cima desse fio equilibra-se o real e o surrealista em movimentos osmóticos. Tudo isto leva o leitor a pensar, reler, e, por fim, a reflectir sobre o modus vivendi. O próprio final, cativante e até mesmo estranho, contribui para essa mesma reflexão impreterível por parte do leitor.
A Metamorfose é subtil e, ao mesmo tempo, acutilante, lançando um olhar feroz sobre a marginalização – não no sentido que lhe atribuímos hoje, mas no sentido de alienação do indivíduo. A crítica pode ser interpretada como um pincelar de um retrato da sociedade em que o autor se insere ou até mesmo como uma visão pessimista do futuro. Questiona-se se Franz Kafka teria reflectido acerca da própria consciência do homem contemporâneo, cuja condição de insecto não mais significa a percepção clara da mais pura insignificância. Face a um universo tão vasto e face a uma cada vez mais crua individualização, o indivíduo ateu, só, criação sem criador, sente-se tão repulsivo e minúsculo quanto um insecto rastejante. Pensa-se, ainda, que o escritor poderia ponderar na visão de uma sociedade subjugadora, ditadora, cujas intenções não fazem mais que remeter o indivíduo à condição de um insecto oprimido.
É também de assinalar a atemporalidade da obra. Quantas pessoas, diferentes daquilo que a sociedade padronizou, não são abandonadas pela própria família? A Metamorfose aparece, assim, com um carácter pedagógico implícito, de uma certa formação cívica, revelando o desespero e as emoções do excluído.
Concluindo, o universo de Franz Kafka continua a inquietar quem o lê e o livro A Metamorfose não poderia ser excepção.
Por Sara Santos Silva 2002
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- Published:
- 12.21.07 / 2am
- Category:
- Literatura, Opinião
- Tags:
- kafka, Literatura
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