[Des]Acordo [Anti-]Ortográfico?
Decerto que já todos os portugueses ouviram algures num noticiário ou leram num jornal algo acerca deste tal novo “Acordo Ortográfico”, que foi por alguém assinado com vista a alterar o nosso português, tornando-o numa língua mais simples, compatível e actualizada.
Julgo que devo começar pelo ponto mais preocupante: o lado democrático deste assunto. Foi aprovada uma mudança significativa no que toca a hábitos, costumes e regras de estilo no nosso país. Estamos num país onde figura a democracia, palavra que vem da elisão de duas palavras da etimologia latina, sendo elas: Demos (povo) e Cratia (poder). Se o significado da palavra ainda não foi alterado num outro qualquer acordo ortografico-linguístico, consta que em Portugal, tal como na maioria dos países civilizados, o poder de decisão acerca de tudo o que tem peso socioeconómico é das maiorias. Do povo. Lanço então uma simples questão: alguém ouviu falar de uma votação ou pelo menos de um referendo onde o povo pudesse manifestar a sua opinião/vontade acerca deste “acordo”? Não. Ninguém ouviu falar, porque tal não sucedeu. Foi-nos imposto por alguém de poder superior que a partir de agora falaríamos uma língua diferente. Onde está a democracia?
“Democracia opõe-se à ditadura e ao totalitarismo, onde o poder reside numa elite auto-eleita” in Wikipédia.
Passo agora para o verdadeiro sumo da questão, i.e. a alteração da ortografia em si. Um desastre. Um ataque veemente e directo ao bom gosto e ao rigor. A destruição progressiva de algo que marca um povo e um país.
Grande parte das alterações aprovadas é baseada no português que é falado no Brasil, com o intuito de tornar as línguas mais próximas. O português de raiz será, portanto, alterado para se tornar mais compatível com uma língua que dele descende. Faz todo o sentido. Passo a mostrar apenas alguns dos exemplos desta brincadeira de mau gosto:
• Onde antes se escrevia algo como “mini-saia”, passar-se-á a escrever “minissaia”;
• Onde era escrito “adoptar”, “óptimo” ou “facto”, escrever-se-á “adotar”, “ótimo” e “fato”, visto que alguém se lembrou que estes Cc e Pp não são lidos com suficiente ênfase para que constem das palavras;
• Onde vinha “pára”, passa a vir “para” (e agora, como se diferenciam as duas palavras?!);
• Onde tínhamos “vêem” ou “lêem”, temos agora “veem” e “leem”.
Estes são os exemplos base do que o Acordo Ortográfico reservou ao nosso ancião e tradicional “português standard”. Este acordo não tem rigorosamente nada a ver com a Globalização. Com a ideia de proximidade entre todos os povos e intercâmbio cultural. Este acordo é uma imposição. É o violar explicito e à luz do dia de uma cultura secular.
Quem gosta, aplaude. Quem não gosta, tem agora muito tempo para aprender a gostar.
Eu não aprovei, tu não aprovaste, ele/ela não aprovou. Nós não aprovámos, vós não aprovastes, eles/elas não aprovaram.
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- Published:
- 3.15.08 / 5pm
- Category:
- Opinião
- Tags:
- acordo ortográfico, Brasil, linguagem, lusofonia, ortografia, política, Portugal
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