Summer of Sam: Opiniões
Spike Lee regressa ao lugar de onde, directa ou simbolicamente, nunca saíu: a sua Nova Iorque de muitas raças e convulsões, aqui revisitada através de uma verídica série de crimes, num Verão dos anos 70, cometidos por um auto-intitulado «son of Sam» (o título original é, aliás, «Summer of Sam»).
O menos que se pode dizer é que Spike Lee continua a ser um fascinante autor polifónico. Cineasta de muitas personagens negras, das questões da negritude, dos problemas rácicos e das agressões racistas, ele não é, no entanto, um mero ilustrador «ideológico» de tais temas. Aliás, se há uma lógica que permanece activa no seu trabalho não é tanto a da diferença negra, mas a da diferença do outro, seja qual for a cor da sua pele.

E o que é admirável em «Verão Escaldante» é isso mesmo. Ou seja: a encenação da vertigem que se instala numa comunidade multi-racial, a ponto de os crimes desencadearem mecanismos de culpabilização — e transferências de culpas — para qualquer outro. Nesta perspectiva, este parece-me ser o filme mais próximo de «Clockers» (1995), a meu ver uma das mais fascinantes proezas narrativas de toda a filmografia do cineasta.
Spike Lee possui um sistema de linguagens que consegue a proeza de integrar muitos modos «artificiosos» de dramaturgia e montagem (sublinhemos a sua cumplicidade com o universo plural dos telediscos e os clips publicitários), sem deixar de preservar uma intensa e subtil carga realista. «Verão Escaldante» é um produto directo de tal complexidade e vitalidade.
João Lopes
Verão de 1977, Nova Iorque, o “disco”, o “punk” e um “serial killer”. Foi a maior caça ao homem que Nova Iorque conheceu — a polícia e os novaiorquinos, incitados pelos tablóides, procuravam aquele que se autodenominava “Son of Sam”, o serial killer que estava a matar mulheres no Bronx e a jogar às escondidas com a polícia através de cartas que mandava aos tablóides.
Elvis Presley acabava de morrer, o Studio 54 era a “passerelle” de Andy Warhol, o “disco” estava no auge — ou seja, próximo do toque de finados — e numa espelunca da Bowery, o CBGB, nascia o “punk” e a “new wave” americana: Talking Heads, Ramones, Television, Blondie e os outros.
Os nova-iorquinos, esses, enlouqueciam com o calor e os aparelhos de ar condicionado ligados no máximo tornavam as noites da cidade mais negras, e mais quentes, devido aos “blackouts”. E endoideciam com a suspeita, à procura nos outros de “sinais” que denunciassem o “Son of Sam”.
Foi com este material, baseado numa história verídica, que Spike Lee fez a sua obra-prima, “Verão Escaldante”, um carnaval macabro que é também dos filmes mais esfusiantes do cinema americano.
Nesse Verão, Spike Lee tinha 20 anos e começava a decidir que iria ser cineasta. Será por isso, provavelmente, que a evocação desse tempo, desta história, e desta Nova Iorque seja feita desta forma tão visceral, tão sensual. Spike Lee vê esta história orgânicamente ligada à manifestação da sua pulsão cinematográfica. “Verão Escaldante” é um requiem por uma cidade que já não existe (porque hoje é mais limpa) e mostra, simultaneamente, um cineasta mais próximo de si, ou com saudades de si — à falta de melhor, com a nostalgia de qualquer coisa que podemos designar como “cinema puro”, próximo de qualquer coisa que deve mais a um espectáculo primitivo de magia.

Apesar de Spike Lee já ter utilizado o mesmo dispositivo de filmar várias personagens num espaço, a cidade, que se torna concentracionário (“Do the Right Thing”, por exemplo), o seu cinema vem-se aproximando de uma coralidade que poderíamos classificar de sinfónica — se considerarmos outros filmes seus mais colados à crispação “rap”.
Em “Verão Escaldante” não há verdadeiramente histórias ou personagens, há borrões de cor, silhuetas e um lirismo volátil que nos coloca sempre à beira do abismo, em sensação de perigo — de que o filme se auto-destrua e arraste o espectador consigo.
Vasco Câmara
Nas últimas décadas, Spike Lee tem-se afirmado como um dos grandes retratistas dos EUA contemporâneos, tendo criado densos olhares de comunidades locais cuja complexidade da abordagem desperta um apelo universal. “Não Dês Bronca” (Do the Right Thing), uma das suas muitas obras centradas em conflitos raciais, foi um dos que lhe garantiu maior visibilidade e reconhecimento num período inicial da sua carreira, e “A Última Hora” (25th Hour), memorável mergulho na trágica herança do 11 de Setembro, destacou-se como um dos ópus mais recentes.
Embora estes sejam os seus dois títulos mais consensuais e emblemáticos, a sua filmografia contempla outros dignos de igual realce, e destes “Verão Escaldante” (Summer of Sam, 1999) impõe-se como um caso a assinalar, sendo talvez o seu melhor filme.
Partindo de acontecimentos reais – o pânico gerado por um serial killer que atormentou o Bronx em 1977, adensado por uma incómoda vaga de calor -, a película aposta, como habitual na obra do realizador, numa análise dos ambientes de comunidades étnicas, neste caso não tanto da negra mas tendencialmente da italo-americana. Desta, emergem três personagens que serão a ponte entre as muitas arestas de um filme que seduz pela diversidade temática: Vinny, um cabeleireiro machista e implusivo; a sua esposa Dionna, que o apoia apesar das frequentes traições; e Ritchie, amigo de Vinny cujo comportamento distinto dos padrões típicos do bairro começa a comprometer a relação de amizade.
Mas mais do que personagens, “Verão Escaldante” é uma obra que trabalha o espírito de uma cidade e de uma época, e fá-lo de uma forma onde os dados factuais surgem interligados com uma energia cinematográfica que atira o filme para uma absorvente experiência sensorial.
Apesar dos assassinatos do homicida marcarem toda a atmosfera do filme, estão longe de ser o elemento central da acção, funcionando antes como pano de fundo desta e elemento decisivo para que se acenda o rastilho para um clima de tensão, desconfiança e pânico que se vai adensando progressivamente. À medida que tentam descobrir a identidade do serial killer, as personagens vão acentuando as suas diferenças e gerando fossos e crispações emocionais de onde emanam sentimentos recalcados, não raras vezes vincados pela xenofobia e intolerância.
Mais do que as já esperadas questões raciais, há aqui outros elementos igualmente marcantes, caso dos conflitos de tendências musicais (e, consequentemente, comportamentais), já que foi neste período que o disco sound atingiu a fase de maior popularidade, mas também o momento em que a ideologia punk deu os primeiros passos. O Studio 54 e o CBGB, ambos representantes de culturas bem distintas, surgem no filme como influentes palcos de agitação, e Lee consegue desenhar os rituais nocturnos da época com adequadas camadas de verosimilhança, ritmo e intensidade.
Sem dúvida um dos picos de inspiração do cineasta, “Verão Escaldante” tem a rara proeza de condensar uma série de temáticas e de as desenvolver com consistência e criatividade, nunca impondo pontos de vista – o que nem sempre ocorre na sua filmografia – e seduzindo através de uma saudável espontaneidade. Da alteração do papel da mulher à preponderância dos media, passando pelas mutações nas orientações sexuais e relações conjugais, o filme é um fresco urbano detalhado e exigente, que em vez de um tom de ensaio demasiado cerebral é antes caracterizado por uma vibrante carga lúdica.

Para esse efeito em muito contribui a sua singularidade formal, onde Lee apresenta um irrepreensível trabalho de realização de forte teor realista e simultaneamente agregador de alguma linguagem dos videoclips e da publicidade. A montagem imaginativa e dinâmica (sem ser estridente) aliada a uma fotografia com muitas explosões de luz e cor reforça essa singularidade visual, que só ganha quando é complementada por uma oportuna selecção musical (toda à base de canções da época, e muitas vezes utilizada para gerar deliciosas pérolas de ironia).
Lee arranca ainda fortes interpretações de um elenco valioso, com destaque para o trio protagonista. John Leguizamo convence na pele do incorrigível Vinnie, Mira Sorvino demonstra que, para além de encantadora, é uma brilhante actriz (ainda que muitas vezes subestimada), e Adrien Brody tem aqui um dos seus melhores desempenhos – o que não é dizer pouco – como Ritchie, aliando vulnerabilidade e determinação na mais interessante e complexa personagem do filme.
Arrebatador a todos os níveis, “Verão Escaldante” é um objecto cinematográfico rico e fascinante, daqueles em que cada visionamento permite descortinar novas camadas e gera surpresa pela obsessiva minúcia com que Lee o construiu. Hipnótico e magnético, transpira vida e intensidade a cada frame ao longo de mais de duas horas frenéticas e merece, por isso, ser recordado e revisto enquanto uma das mais admiráveis obras-primas dos últimos anos.
Gonçalo Sá (http://www.gonn1000.blogspot.com/)
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- Published:
- Abril 7, 2008 / 8:50 pm
- Tags:
- joao lopes, spike lee, summer of sam, vasco camara
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