“Maldoror”: Crítica

“É isto” o final de Maldoror

Por Sara Santos Silva

Um ano depois, chegou ao fim a tournée de Mão Morta pelo universo de Isidore Ducasse, ou melhor, do Conde de Lautréamont. O sumptuoso Theatro Circo acolheu novamente o espectáculo Maldoror, em que a doçura das melodias contrasta com a amargura das palavras. Durante aproximadamente 90 minutos, Mão Morta exploram, de forma vertiginosa e sem interrupções, o discurso alucinado de horror.

No palco, encontra-se um paralelepípedo gigante em cima do qual actua Miguel Pedro (baterista). As narrativas são ilustradas com vídeos de Nuno Tudela. Crianças, insectos e a própria face de Adolfo desfigurada em directo são alguns dos exemplos que reforçam “o clima de estranheza”, como disse Luxúria Canibal numa entrevista que lhe fiz, exactamente há um ano atrás. Já para não falar nas máscaras de porcos que todos os músicos envergaram em “O Sonho” e as asas negras que Adolfo apresentou.

© Juliusz Martwy

“Maldoror” prima por conciliar na perfeição as descargas mais eléctricas com a electrónica e os tons pungentes típicos de um “Primavera de Destroços”. O refrão de “A Porcaria” já quase parece um hino da banda. Ainda o espectáculo não tinha começado e já o público gritava: “Estou sujo / Roído de piolhos”.

Os textos da obra-prima “Les Chants de Maldoror” são de tal forma simbólicos, originais e provocadores, que constituem múltiplas interpretações. À frente do seu tempo, Isidore Ducasse poderia ter sido um surrealista, não fossem os seus escritos ainda do século XIX. Os cantos descrevem cenas brutais, por vezes, de violência extrema. A crueldade, a cobardia e a estupidez humana são os principais motivos. A mente distorcida e depravada do autor/narrador/personagem (as vozes entrecruzam-se num emaranhado narrativo) nos “Cantos” torna Isidore Ducasse um autor de culto para os apreciadores de um género mais subversivo da literatura.


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